Bisfenol desregula hormônios tireoidianos mesmo em dose baixa

Bisfenol desregula hormônios tireoidianos mesmo em dose baixa
O bisfenol pode desregular hormônios tireoidianos mesmo em dose baixa. O mesmo ocorre com o herbicida à base de glifosato mais usado no Brasil.
[Imagem: Wikimedia]

Doses baixas perigosas

Um dos conceitos-chave da toxicologia é que "a dose faz o veneno".

Mas isto pode não valer no caso dos desreguladores endócrinos, substâncias cada vez mais presentes em nosso cotidiano.

Pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) constataram que, mesmo em doses bem inferiores às consideradas seguras pelas agências reguladoras, dois conhecidos disruptores endócrinos - o bisfenol A e um herbicida à base de glifosato - podem alterar a regulação dos hormônios tireoidianos se a exposição ocorrer em momentos específicos da vida.

Os desreguladores endócrinos estão presentes nos plásticos, alimentos, cosméticos, remédios e, devido à sua larga utilização, agora também na água e no ar, embora em doses variadas.

Devido aos riscos que eles representam à saúde, tem havido um movimento consistente para a elevação dos níveis mínimos permitidos e, em alguns casos, até mesmo do banimento de algumas dessas substâncias.

"Estudos recentes sugerem que, no caso dos desreguladores endócrinos, nem sempre a dose mais baixa é a mais segura, pois ela pode passar despercebida pelos mecanismos de defesa das células. Por outro lado, a janela de exposição parece realmente fazer diferença, sendo mais críticas as fases de desenvolvimento embrionário e aleitamento, bem como a puberdade, quando há grandes alterações hormonais ocorrendo no organismo," explicou a pesquisadora Maria Izabel Chiamolera.

Passa de pai para filho?

Animais de laboratório expostos aos desreguladores endócrinos nessas fases apresentaram sequelas, incluindo alterações genéticas, que se estenderam pela vida adulta.

A exposição ao herbicida à base de glifosato - o tipo mais usado na agricultura brasileira - gerou uma condição similar ao hipotireoidismo, com a expressão de genes-chave para a regulação tireoidiana alterada tanto no hipotálamo quanto na hipófise e também em órgãos como fígado e coração.

A baixa exposição ao bisfenol A - um décimo da dose considerada segura - durante a gravidez ou a fase da puberdade "lembram o hipotireoidismo no modelo peribuberal e o hipertireoidismo no modelo perinatal," disse a pesquisadora. Os animais machos ainda apresentaram hipogonadismo, redução da libido, prejuízos na fertilidade, perda de massa muscular e ganho de massa gorda, entre outros sintomas.

"Nosso próximo passo é tentar entender por que esses animais que só foram expostos indiretamente e só no início da vida apresentam alteração na expressão gênica quando adultos. Será que o padrão de regulação foi alterado em definitivo? Será que a prole desses animais também vai herdar essa alteração? São perguntas que pretendemos investigar agora," disse Maria Izabel.

Na avaliação da pesquisadora, as decisões dos órgãos que regulam o uso dessas substâncias devem passar a considerar também os princípios da endocrinologia - e não apenas os da toxicologia.


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