Exame detecta zika e dengue sem o uso de equipamentos de laboratório

Exame detecta zika e dengue sem o uso de equipamentos de laboratório
A inovação do exame mereceu a capa da renomada revista Science.
[Imagem: Science/Divulgação]

Sherlock dos exames

A detecção precisa dos vírus dengue e zika diretamente em amostras de pacientes, sem a necessidade de preparações ou equipamentos laboratoriais, agora é possível graças a uma técnica desenvolvida por pesquisadores dos EUA e do Brasil.

O novo sistema, batizado de Sherlock, mereceu a capa da revista Science desta semana.

Sherlock é abreviação em inglês para Desbloqueio Enzimático Específico de Alta Sensibilidade, uma plataforma de diagnóstico que permite detectar ácidos nucleicos (RNA e DNA) em vários tipos de amostras, de forma bastante específica, por meio de uma reação enzimática que pode ser feita em um tubo de ensaio ou em tiras de papel, mesmo longe do laboratório.

Para isso, os cientistas adaptaram uma enzima chamada CRISPR-Cas13, capaz de reconhecer ácidos nucleicos, acrescentando moléculas-repórter que indicam a presença de um alvo genético, como um vírus.

Até agora, para processar as amostras de pacientes nessa plataforma, era necessário extrair e isolar os ácidos nucleicos ali presentes, o que requer infraestrutura laboratorial e pessoal treinado, dificultando a realização em campo.

Para facilitar e baratear o processo, a equipe criou uma técnica intermediária, chamada Hudson (abreviação em inglês para Aquecendo Amostras Diagnósticas não Extraídas para Obliterar Nucleases), um tratamento químico e térmico para ser usado nas amostras com o objetivo de inativar certas enzimas que, de outra forma, degradariam os alvos genéticos.

O novo método possibilitou à enzima detectar seu alvo diretamente em fluidos corporais como saliva, urina ou sangue. As amostras podem então ser processadas por Sherlock e os resultados finais, positivos ou negativos, são facilmente visualizados em tiras de papel.

Pacientes brasileiros

Desenvolvida no Instituto Broad, vinculado ao MIT e à Universidade de Harvard, a técnica foi validada com amostras de pacientes brasileiros, coletadas no âmbito de um projeto coordenado por Maurício Lacerda Nogueira, professor da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp). "Temos feito estudos epidemiológicos com a dengue nos últimos 15 anos e, mais recentemente, também com o zika. Isso nos permitiu ter uma coleção de amostras muito grande e bem caracterizada," disse ele.

Exame detecta zika e dengue sem o uso de equipamentos de laboratório
A plataforma Sherlock usa a enzima Cas13a, capaz de reconhecer ácidos nucleicos virais em fluidos corporais, dispensando infraestrutura laboratorial.
[Imagem: Broad Institute]

"Uma das grandes vantagens desse tipo de tecnologia é a facilidade de adaptar o teste para se adequar às necessidades do momento. Caso surja uma epidemia com um vírus novo, é possível rapidamente desenvolver o kit com os reagentes e levá-lo ao local. Porém, ainda estamos a alguns anos da aplicação comercial desse tipo de método", acrescentou o médico brasileiro.

No artigo publicado pela revista Science, por exemplo, a equipe mostrou ser possível desenvolver rapidamente ensaios adaptados para discriminar os quatro sorotipos do vírus da dengue e as diferentes linhagens do zika que circularam pelo Brasil entre 2015 e 2016. Já no caso do HIV, vírus causador da Aids, a técnica Sherlock se mostrou capaz de identificar variantes genéticas associadas à resistência aos medicamentos antirretrovirais.

"Um método diagnóstico ideal combinaria a sensibilidade, a especificidade e a flexibilidade das técnicas moleculares com a rapidez e a facilidade de uso das técnicas baseadas em antígenos. Tal tecnologia poderia ser rapidamente desenvolvida e aplicada diante de um surto viral emergente e seria útil tanto para vigilância epidemiológica como para uso na rotina clínica", disseram os autores no artigo.


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