Neurociências não provaram nem confirmaram livre arbítrio

Livre arbítrio versus determinismo

Há várias décadas, um pesquisador ou outro na área de neurociências ganha seus cinco minutos de fama argumentando que "seus estudos provam cientificamente" que as ações humanas são conduzidas por estímulos externos, que o cérebro é sempre reativo e, concluem eles, que o livre arbítrio é uma ilusão.

Mas uma meta-análise desses estudos revelou que a maioria deles contém inconsistências metodológicas, resultados conflitantes ou simplesmente um viés de opinião preconcebida dos próprios cientistas que os realizaram.

"Marque um ponto para o ceticismo quanto se trata de afirmações de que a neurociência provou - ou refutou - qualquer posição metafísica.

"O problema é que os neurocientistas que estão se formando estão ouvindo nas escolas que esses estudos fornecem uma prova definitiva da ausência de livre arbítrio, e os professores não estão tendo o cuidar de analisar as evidências que apoiariam as alegações que são feitas.

"Ensinar um pensamento não-crítico assim nos cursos de ciências é não-científico e socialmente perigoso," disse o professor Veljko Dubljevic, da Universidade do Estado da Carolina do Norte (EUA), especialista em pesquisas sobre ética da neurociência e da tecnologia.

Viés nas conclusões e conclusões sem experimentos

A questão sobre a análise científica do livre arbítrio surgiu com estudos de Benjamin Libet na década de 1980, que avaliaram a atividade cerebral em participantes convidados a realizar uma tarefa específica. Libet concluiu que a atividade do cérebro precedia as ações de uma pessoa antes de a pessoa decidir agir. Estudos posteriores, usando várias técnicas, alegaram ter replicado este resultado básico.

Mas, na primeira revisão qualitativa desses estudos, os pesquisadores estão descobrindo que os resultados estão longe de serem conclusivos. A revisão analisou 48 experimentos, que vão desde o estudo histórico de Libet, em 1983, até 2014.

"Nós descobrimos que a interpretação dos resultados dos estudos parece ter sido conduzida pela posição metafísica adotada pelo autor ou pelos autores - e não por uma análise cuidadosa dos próprios resultados. Basicamente, aqueles que se opõem ao livre arbítrio interpretaram os resultados para apoiar sua posição, e vice-versa," disse Dubljevic.

Os pesquisadores também descobriram uma variabilidade significativa entre os diversos experimentos. Por exemplo, um subconjunto de estudos que de fato analisaram onde a atividade estava ocorrendo no cérebro, e se estava relacionada à vontade (ou à intenção de completar uma tarefa), frequentemente obtiveram resultados contraditórios.

"Enquanto isso, os artigos publicados que chegaram às conclusões mais fortes frequentemente nem sequer avaliaram a atividade neural em questão - o que significa que suas conclusões foram baseadas em especulações," disse Dubljevic. "É crucial examinar criticamente se os métodos utilizados realmente suportam as alegações sendo feitas."

"Para ser claro, não estamos tomando posição sobre o livre arbítrio," diz Dubljevic. "Nós estamos apenas dizendo que a neurociência não provou definitivamente nada, nem num sentido, nem no outro."

Ciência ruim

Toda essa discussão é mais do que uma briga entre cientistas, sendo uma questão importante porque o que as pessoas ouvem sobre o livre arbítrio pode afetar seu comportamento.

"Numerosos estudos sugerem que promover uma crença no determinismo [o oposto do livre arbítrio] influencia comportamentos como trapaças," disse Dubljevic. "Promover uma crença infundada na posição metafísica da inexistência do livre arbítrio pode aumentar a probabilidade de que as pessoas não se sintam responsáveis por suas ações se acharem que suas ações foram predeterminadas." Um prato cheio para advogados tentando livrar seus clientes das responsabilidades por crimes, por exemplo.

E isso não é um problema exclusivo da comunidade das neurociências. Os trabalhos anteriores de Dubljevic e seus colaboradores descobriram problemas na forma como essa área de pesquisa tem sido coberta pela imprensa e chegado ao público: quase sempre seguindo o velho chavão "estudo científico prova que..." - o que Dubljevic chama de má ciência.


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